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A maioria das mulheres vítimas de feminicídio em Mato Grosso no primeiro semestre de 2026 chegou ao episódio fatal sem ter recorrido anteriormente aos mecanismos formais de proteção.
Entre as mulheres assassinadas no período, 96% não haviam solicitado medida protetiva e 72% não tinham denunciado previamente o agressor.
Os números expõem uma das maiores dificuldades no enfrentamento ao feminicídio no Estado: alcançar a mulher enquanto a violência ainda ocorre dentro de casa e antes que agressões, ameaças e controle evoluam para o assassinato.
De janeiro a junho, Mato Grosso registrou 31 feminicídios — nove em janeiro, seis em fevereiro, quatro em março, sete em abril, três em maio e dois em junho.
O perfil dos crimes reforça a relação entre feminicídio e violência doméstica. No primeiro semestre, 76% das mortes ocorreram dentro da residência da vítima.
Em 64% dos casos, o autor era parceiro ou ex-companheiro.
A combinação desses indicadores mostra que, em parcela expressiva dos casos, a violência fatal ocorre justamente no ambiente privado e é praticada por alguém que mantém ou manteve relação afetiva com a mulher.
O problema, porém, começa muito antes do feminicídio.
VIOLÊNCIA QUE NÃO É RECONHECIDA - Dados divulgados pelo DataSenado ajudam a dimensionar a parcela da violência que permanece distante da rede formal de proteção.
A Pesquisa Nacional de Violência contra a Mulher constatou que 33% das mulheres de Mato Grosso já sofreram violência doméstica ou familiar provocada por homem, colocando o Estado entre os maiores percentuais encontrados no levantamento.
A pesquisa ouviu 21.641 brasileiras e teve entrevistas realizadas entre maio e julho de 2025.
Outro recorte mostra um fenômeno ainda mais difícil de enfrentar.
Quando questionadas inicialmente sobre violência, somente uma parcela das entrevistadas se reconhece espontaneamente como vítima.
Ao serem apresentadas situações concretas de agressão, porém, outras 29% relatam experiências compatíveis com violência doméstica ou familiar sem inicialmente identificá-las dessa maneira.
Em Mato Grosso, o levantamento reproduzido no boletim estima em 421,2 mil mulheres o contingente que relatou situações de violência nos 12 meses anteriores sem inicialmente reconhecê-las como violência doméstica ou familiar.
A distância entre sofrer uma agressão, reconhecer-se como vítima e procurar ajuda ajuda a explicar por que parte da violência permanece invisível para as instituições.
SEM DENÚNCIA - A ausência de registro anterior não significa necessariamente ausência de violência antes do assassinato.
Pode indicar que ameaças, agressões psicológicas, controle, perseguição ou agressões físicas não chegaram ao conhecimento das autoridades.
Essa dificuldade já aparecia nos levantamentos anteriores da Polícia Civil.
No primeiro semestre de 2025, 85% das vítimas de feminicídio não haviam feito denúncia anterior contra o agressor e 93% não possuíam medida protetiva, segundo relatório da Diretoria de Inteligência da instituição.
Os percentuais de 2026 apresentados no boletim — 72% sem denúncia anterior e 96% sem solicitação de proteção — mantêm, portanto, um problema central: a maior parte das vítimas fatais não estava alcançada previamente pelos mecanismos formais de proteção.
Isso também impede uma interpretação simplista dos números.
A medida protetiva é um instrumento de prevenção, mas só pode integrar a resposta do Estado quando a violência chega de alguma forma à rede de atendimento.
DENTRO DE CASA - A residência aparece como o principal cenário dos feminicídios registrados no primeiro semestre.
O dado de que 76% das vítimas foram mortas dentro de casa também confronta a percepção de segurança associada ao ambiente doméstico.
O risco se torna ainda mais evidente quando observado quem pratica o crime: quase dois em cada três feminicídios tiveram como autores parceiros ou ex-companheiros.
A identificação dos sinais anteriores à violência extrema passa, por isso, a ocupar posição central na prevenção. Agressões físicas são apenas uma das manifestações.
A violência doméstica também pode envolver ameaça, perseguição, humilhação, controle financeiro, isolamento e violência psicológica.
O próprio levantamento nacional do DataSenado aponta a distância entre a experiência vivida e a percepção da vítima.
No país, uma em cada três mulheres relatou alguma situação de violência doméstica ou familiar nos 12 meses anteriores, mas somente 4% se declararam espontaneamente vítimas.
Em outras palavras, a violência que termina no feminicídio pode começar muito antes de aparecer nas estatísticas policiais.
E os números de Mato Grosso indicam que o desafio da rede de proteção não está apenas em responder às denúncias.
Está também em encontrar formas de alcançar as mulheres que sofrem violência, mas ainda não conseguem reconhecê-la, denunciá-la ou pedir proteção.
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